• Porque os feirões ou mutirões da inadimplência em condomínios podem não ser uma boa ideia

    Em muitos condomínios e associações residenciais com taxas de inadimplência elevada e valores a receber acumulados expressivos, muitas vezes surge a ideia de se fazer um “Feirão da inadimplência” ou um “Feirão de renegociação” visando sanar um problema que via de regra não foi criado da noite para o dia, mas que em dado momento se torna tão grande que compromete as finanças do condomínio ou associação.

    Em geral a decisão por realizar o Feirão vem após se constatar que o condomínio está com um problema financeiro sério, e que não há alternativas a não ser fazer um grande reajuste nas taxas para compensar o rombo. Neste momento, sempre surge a sugestão de se realizar o Feirão, seja numa assembleia, ou numa reunião de conselho, e a ideia acaba sendo adotada.
    Qual é o problema com esta decisão? Afinal é uma forma de se tentar resolver uma situação premente de desequilíbrio financeiro.

    O primeiro problema é que o condomínio permitiu que um problema de inadimplência muito grande se instalasse e evoluísse a ponto de se encontrar sem opções melhores. O Feirão não resolverá isso. Ao contrário, contribuirá para a perpetuação do problema.

    O segundo problema é que ao se tomar esta decisão, a comunidade condominial ou associativa entenderá que, feito o Feirão, se o problema se repetir no futuro outros Feirões serão feitos, criando-se, portanto, as condições para a instalação de um círculo vicioso de acúmulo de débitos e futuros Feirões como solução.

    O terceiro problema é que os devedores esperam que nestes feirões sejam concedidas condições especiais para quitação dos débitos. Muitos condomínios e associações, além da possibilidade de pagamentos parcelados, acabam oferecendo descontos em multas, juros e correção, e até mesmo no valor principal dos débitos. Tal decisão quase que certamente coloca o condomínio ou associação num rumo de degradação das receitas, instalando, dentre os condôminos pontuais, uma percepção de injustiça, e de que seu esforço em cumprir com suas obrigações os coloca numa posição de desvantagem em relação aos maus pagadores, levando-os a gradativamente abandonar sua pontualidade, e a perceber que seu condomínio está se degradando como instituição.
    É claro que, em certas circunstâncias muito específicas, o Feirão da inadimplência pode ser uma iniciativa válida, mas estas circunstâncias são realmente bem restritas. Por exemplo, num condomínio onde a população seja predominantemente idosa, com problemas de locomoção, onde o Feirão será uma gentileza e um consideração especial para com aquelas pessoas. Ou num condomínio no qual poucos tenham acesso à internet ou a telefones. Enfim, casos bem específicos. Mas em hipótese alguma, possibilidades devem ser oferecidas aos devedores de tal forma a coloca-los em posição de vantagem financeira em relação aos bons pagadores. Descontos em multas, juros ou correção não podem e não devem jamais ser concedidos.

    Às vezes é difícil para um Síndico ou diretor de associação contornar sugestões bem-intencionadas vindas de condôminos ou associados que querem ver problemas sendo corrigidos, mas que não resistem a uma análise mais criteriosa e profunda. Mas isso é parte da tarefa de administrar. A sugestão de realização de Feirões ou mutirões da inadimplência é um destes casos. Em casos assim, tem-se de um lado condôminos adimplentes preocupados e indignados com uma situação, e que tendem a agir emocionalmente, e de outro os administradores do condomínio ou associação tendo que lidar com a realidade concreta e tendo que tomar decisões racionais e muitas vezes antipáticas, ou contrárias ao pensamento emocional ou instintivo. Mais uma vez, isto faz parte da tarefa de administrar. A sabedoria está em saber usar a mola propulsora da indignação e das boas intenções para se criar soluções realmente boas e eficazes. A arrecadação de taxas condominiais é o oxigênio essencial para a correta administração e sustentabilidade econômica do condomínio ou associação, e deixar a inadimplência sem um tratamento sistemático, firme e impessoal, mesmo quando pequena, é o mesmo que investir em seu crescimento.